Pesquisa publicada no Journal of Dentistry acompanhou 126 restaurações durante 18 meses e não identificou benefícios significativos da abrasão com óxido de alumínio em lesões cervicais não cariosas

A contribuição da pesquisa está em demonstrar que a inclusão de etapas adicionais nos protocolos clínicos precisa ser sustentada por benefícios comprovados

O uso do jateamento com óxido de alumínio antes da aplicação do sistema adesivo pode parecer uma estratégia para melhorar a retenção de restaurações em resina composta. Mas será que essa etapa adicional proporciona benefícios clínicos? Um ensaio clínico randomizado publicado no Journal of Dentistry, na edição de setembro de 2026, investigou essa questão e não encontrou melhora significativa no desempenho das restaurações após 18 meses de acompanhamento.

Conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com participação de profissionais da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o trabalho avaliou a utilização da abrasão por partículas de óxido de alumínio em lesões cervicais não cariosas (LCNCs).

Essas lesões são caracterizadas pela perda de estrutura dentária na região próxima à margem gengival, sem envolvimento direto da doença cárie. Sua origem é multifatorial, podendo envolver processos de desgaste mecânico, erosão química e outros fatores associados.

Quando o tratamento restaurador é indicado, a obtenção de uma adesão duradoura pode representar um desafio. Isso ocorre, entre outros motivos, pela presença frequente de dentina esclerosada, cuja superfície apresenta características que dificultam a interação com determinados sistemas adesivos.

Nesse contexto, o jateamento com partículas abrasivas tem sido utilizado como tratamento prévio da superfície dentinária, com a proposta de favorecer a adesão. Entretanto, os benefícios observados em avaliações laboratoriais nem sempre se traduzem em melhores resultados clínicos.

Como foi realizada a pesquisa?

O estudo acompanhou 63 participantes, cada um com pelo menos duas lesões cervicais não cariosas semelhantes, totalizando 126 restaurações.

Os pesquisadores utilizaram um modelo conhecido como boca dividida, no qual diferentes tratamentos são realizados em dentes do mesmo paciente, permitindo comparar seus resultados sob condições individuais semelhantes.

Em um grupo, as restaurações foram realizadas com sistema adesivo universal, condicionamento ácido seletivo do esmalte e resina composta bulk-fill. No outro, o mesmo protocolo foi precedido de jateamento da dentina com partículas de óxido de alumínio de 50 micrômetros, durante dez segundos.

Todos os procedimentos foram realizados sob isolamento absoluto, seguindo protocolos padronizados.

As restaurações foram avaliadas inicialmente e após seis e 18 meses. Os pesquisadores analisaram retenção e fratura, além de critérios como adaptação marginal, alteração de cor nas margens, sensibilidade pós-operatória e ocorrência de cárie secundária.

Ao final do acompanhamento, foram registradas seis perdas de restaurações: uma no grupo sem jateamento e cinco no grupo submetido à abrasão.

As estimativas de retenção em 18 meses foram de 96,7% para as restaurações realizadas sem jateamento e 90,3% para aquelas que receberam o tratamento adicional.

Apesar da diferença numérica, a análise estatística não demonstrou diferença significativa entre os grupos. Também não foram identificadas vantagens do jateamento nos demais critérios clínicos avaliados.

O que os resultados representam para a prática clínica?

Os achados questionam a necessidade de acrescentar rotineiramente uma etapa de abrasão com óxido de alumínio ao protocolo restaurador de lesões cervicais não cariosas.

Embora a modificação da superfície dentinária possa apresentar fundamentos laboratoriais, o estudo não demonstrou que sua utilização, nas condições investigadas, tenha proporcionado maior retenção, melhor adaptação marginal ou redução de complicações.

Os resultados também mostram que ambos os grupos apresentaram elevada retenção ao longo dos 18 meses, mesmo diante das dificuldades adesivas associadas às lesões cervicais.

Isso não significa, entretanto, que todas as técnicas de jateamento sejam ineficazes ou que o procedimento deva ser descartado em qualquer situação. A pesquisa avaliou parâmetros específicos de abrasão, associados a um determinado protocolo adesivo e restaurador.

Entre as limitações estão o período de acompanhamento e o pequeno número de falhas registradas, fatores que restringem conclusões sobre possíveis diferenças em longo prazo. Novos estudos poderão esclarecer se outras condições de aplicação modificam os resultados.

Para a Odontologia Restauradora, a contribuição da pesquisa está em demonstrar que a inclusão de etapas adicionais nos protocolos clínicos precisa ser sustentada por benefícios comprovados, e não apenas por resultados laboratoriais ou pela expectativa de melhorar a adesão.

O artigo, intitulado Does air abrasion improve the retention of restorations in non-carious cervical lesions? An 18-month split-mouth randomized controlled trial, foi publicado no Journal of Dentistry, volume 172, de setembro de 2026, e está disponível em acesso aberto.

Com informações do estudo

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